Liraglutide (Victoza/Saxenda) como tratamento medicamentoso no excesso de peso

Além da modificação do estilo de vida, com a adoção de um padrão alimentar saudável e combate ao sedentarismo, alguns pacientes com excesso de peso podem precisar de medicamentos para conseguir emagrecer. Entre as opções terapêuticas atualmente disponíveis no Brasil, temos o liraglutide, medicamento injetável originalmente desenvolvido para o tratamento do diabetes mellitus tipo 2. O nome comercial do liraglutide para tratamento do diabetes tipo 2 é Victoza e para tratamento do excesso de peso é Saxenda. Vamos entender como o liraglutide funciona e em que situações está indicado.
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Quando comemos, ao chegar no intestino, o alimento estimula a secreção de algumas substâncias que participam ativamente do metabolismo da glicose. Estas substâncias são peptídeos (cadeias de aminoácidos) gastrointestinais também conhecidos como incretinas. As duas principais incretinas são o GIP (polipeptídeo inibitório gástrico) e o GLP-1 (peptídeo similar ao glucacon-1). O GLP-1 é produzido pelas células L do intestino delgado e secretado na corrente sanguínea. Através da circulação, o GLP-1 alcança diversos tecidos do nosso corpo onde pode exercer diferentes funções. Pâncreas, estômago, rins, pulmões, coração, pele, células do sistema imunológico e cérebro apresentam receptores para o GLP-1. Seu principal efeito é ajudar o pâncreas a secretar insulina de maneira apropriada. Outro efeito importante é causar saciedade, já que o GLP-1 faz com que o estômago esvazie de forma mais lenta, além de possivelmente agir no hipotálamo, região do cérebro que controla o apetite. O liraglutide é um análogo do GLP-1. Isto é, exerce função semelhante com a diferença de ser resistente à inativação enzimática pela DPP-4. Esta resistência faz com que o liraglutide fique disponível por mais tempo na circulação, potencializando seus efeitos.
No tratamento do excesso de peso, o liraglutide está aprovado para uso em paciente com índice de massa corporal (IMC) maior ou igual a 30 kg/m² ou IMC maior ou igual a 27 kg/m² na presença de comorbidades (por exemplo, pressão ou colesterol elevados). Até o momento foram realizados pelo menos 3 grandes estudos avaliando o liraglutide como tratamento para o obesidade, totalizando mais de 4500 pacientes seguidos por até 1 ano. Nestes estudos, quanto maior a dose do liraglutide, maior foi a perda de peso. Enquanto os pacientes que fizeram uso de placebo perderam até 2,8 kg, os pacientes que fizeram uso de liraglutide em dose máxima perderam até 8,4 kg, ou seja, uma diferença de 5,6 kg entre os grupos, significativa, mas não extraordinária como algumas pessoas advogam.
Entre os efeitos adversos mais frequentes estão náuseas (até 47 porcento) e vômitos (até 12 porcento). Outros efeitos indesejados são diarreia, anorexia e queda nos níveis de glicemia. Efeitos adversos raros, mas potencialmente graves, são pancreatite, doença da vesícula biliar, perda de função dos rins e pensamentos suicidas. Como os estudos para tratamento da obesidade tiveram curta duração, dados de segurança a longo prazo ainda são escassos. O liraglutide é contraindicado em gestantes ou mulheres amamentando e em pacientes com história de câncer medular de tireoide.
Por fim, o custo-benefício do tratamento é bastante questionável. Como o liraglutide é um medicamento de alto custo, com eficácia discreta, e foi avaliado por tempo curto em uma doença considerada crônica, a individualização, e não a generalização/banalização, do tratamento deve ser a regra. O médico endocrinologista deve sempre pesar junto com o paciente os prós e contras antes da prescrição deste tipo de terapia.
Fontes:
1- Astrup A, Rössner S, Van Gaal L, Rissanen A, Niskanen L, Al Hakim M, Madsen J, Rasmussen MF, Lean ME, NN8022-1807 Study Group. Effects of liraglutide in the treatment of obesity: a randomised, double-blind, placebo-controlled study. Lancet. 2009;374(9701):1606.
2- Pi-Sunyer X, Astrup A, Fujioka K, Greenway F, Halpern A, Krempf M, Lau DC, le Roux CW, Violante Ortiz R, Jensen CB, Wilding JP, SCALE Obesity and Prediabetes NN8022-1839 Study Group. A Randomized, Controlled Trial of 3.0 mg of Liraglutide in Weight Management. N Engl J Med. 2015 Jul;373(1):11-22.
3- Wadden TA, Hollander P, Klein S, et al. Weight maintenance and additional weight loss with liraglutide after low-calorie-diet-induced weight loss: the SCALE Maintenance randomized study. In J Obes (Lond). 2013;37(11):1443.
Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

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