Resveratrol e metabolismo glicêmico: seria uma opção no tratamento do diabetes mellitus tipo 2?

O resveratrol é um composto polifenólico encontrado na casca de uvas escuras. Devido ao seu potencial antioxidante, diferentes estudos associam o resveratrol à redução de doenças cardíacas e vasculares. Além disso, alguns estudos em animais sugerem que o resveratrol possa ter efeitos no metabolismo glicêmico tanto reduzindo a resistência a insulina através de redução na quantidade de tecido adiposo, quanto aumentando a captação de glicose independente da presença de insulina. Contudo, em ciência, toda hipótese deve ser devidamente testada. Será que uma suplementação com resveratrol poderia trazer efeitos positivos no tratamento do diabetes mellitus tipo 2? É o que veremos a seguir…

O resveratrol está presente na casca de uvas escuras.
O resveratrol está presente na casca de uvas escuras.
No ano de 2014, um grupo de pesquisadores chineses revisou toda a literatura médica sobre o resveratrol disponível até o momento e compilou os dados disponíveis em uma revisão sistemática com metanálise publicada na revista médica The American Journal of Clinical Nutrtion. Chamamos de revisões sistemáticas com metanálises, estudos que reúnem dados de vários estudos menores com características semelhantes. O objetivo é aumentar a certeza científica sobre determinado assunto. Em uma revisão sistemática, os estudos são avaliados quanto a sua qualidade metodológica, isto é, existe uma leitura crítica da literatura científica.
Os autores encontraram 131 estudos, dos quais apenas 11 artigos puderam ser incluídos na metanálise por apresentarem qualidade metodológica aceitável (ensaio clínico randomizado em seres humanos, com pelo menos 2 semanas de duração, comparando um grupo de pacientes que fez uso do resveratrol a um grupo controle que não fez uso). Dos 11 estudos selecionados, apenas 3 foram em pacientes com diabetes tipo 2. No total, foram avaliados 142 pacientes diabéticos que usaram doses de resveratrol entre 10 e 1500 mg por dia ou placebo (cápsula sem efeito) seguidos por até 3 meses. O uso do resveratrol nesse grupo de pacientes foi capaz de reduzir de maneira significativa a glicemia de jejum em 35 mg/dL e a hemoglobina glicada em 0,73% quando comparado ao placebo. Em outras palavras, o resveratrol mostrou um efeito benéfico sobre a glicemia em pacientes diabéticos tipo 2. Isso quer dizer que o resveratrol pode ser usado no tratamento do diabetes? A resposta é: talvez um dia. Vamos entender por que…
O diabetes mellitus tipo 2 é uma doença crônica, isto é, pacientes convivem com o problema por 10, 20, 30 ou mais anos. Por isso, na avaliação da eficácia e da segurança de qualquer tratamento, é importante que um número adequado de pacientes seja seguido por um tempo mínimo. Os estudos incluídos nesta revisão continham número pequeno de pacientes que foram seguidos por pouco tempo, logo, os resultados não podem nem devem ser generalizados para toda e qualquer pessoa com diabetes. Além disso, apenas 1 dos 3 estudos avaliados foi considerado de alta qualidade pelos pesquisadores chineses.
Ou seja, o uso do resveratrol como possível tratamento do diabetes mellitus tipo 2 é uma hipótese plausível e que merece ser melhor investigada. Dúvidas quanto a melhor dose, interações com outros medicamentos, perfil de paciente que mais se beneficia, contraindicações, efeitos adversos, segurança cardiovascular, redução de complicações associadas ao diabetes e custo-benefício ainda precisam ser esclarecidas antes que o resveratrol possa estar presente no receituário médico.
Fonte: Liu K, Zhou R, Wang B, Mi MT. Effect of resveratrol on glucose control and insulin sensitivity: a meta-analysis of 11 randomized controlled trials. Am J Clin Nutr. 2014 Jun;99(6):1510-9.
 
Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

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