Mais médicos ou melhores políticos?

O objetivo deste texto não é criticar o polêmico programa Mais Médicos do governo federal, nem dizer que não faltam médicos, muito menos criticar os colegas cubanos. Minha intenção é colocar um prisma diferente sobre a questão da saúde pública. Será que nossos representantes estão ajudando você a viver mais e melhor? Como um bom político pode ser tão eficiente quanto um médico na redução da morbidade e mortalidade?

Em 2011, uma das revistas médicas mais importantes do mundo, The Lancet, publicou uma série de estudos sobre o panorama de saúde dos brasileiros. Em um desses artigos, a doutora Maria Inês Schmidt, pesquisadora da UFRGS, mostra que, nas últimas décadas, a maior prioridade em saúde no Brasil são as doenças crônicas não transmissíveis, das quais se destacam o diabetes, o câncer, as doenças cardiovasculares e as doenças respiratórias. A pesquisadora enumera os principais fatores de risco: fumo, alimentação inapropriada e sedentarismo, principalmente. Ora, nós sabemos que o impacto sobre esses fatores através de políticas públicas é bem maior do que o impacto do aconselhamento médico-paciente.

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No caso da pressão alta, por exemplo, que é um reconhecido fator de risco para derrames e enfartes, qual estratégia teria mais impacto sobre a saúde da população? Importar 6 mil médicos de Cuba e fornecer medicamentos de forma gratuita ou criar uma legislação que faça com que a indústria alimentícia restrinja o teor de sódio nos alimentos, incentivar uma alimentação saudável e criar condições de mobilidade para que o cidadão use bicicleta em vez de automóvel particular, com consequente redução dos índices de obesidade dos brasileiros? Com certeza, a segunda, já que “trataria”, inclusive, pessoas que não chegam ao sistema de saúde, e melhor, de forma passiva.

As duas estratégias agem em diferentes pontos do processo saúde-doença, isto é, não se excluem. Contudo, lançar “programas emergenciais” rende bem mais votos que as estratégias socioambientais que mudam a vida das pessoas sem que elas percebam. É por isso que se investe mais em asfalto do que em saneamento. O asfalto (Mais Médicos) aparece mais que o encanamento (políticas públicas), além de o eleitor lembrar mais fácil. Vivemos uma grande inversão de prioridades, em que a medicina curativa vem antes da preventiva, por opção dos nossos representantes.

Acredito que, no âmbito da saúde pública brasileira, o principal fator de risco a ser combatido ainda seja a ignorância. A educação precária que forma cidadãos alienados, perpetua o ciclo da politicagem em véspera de eleição em detrimento do bem maior, a saúde do Brasil.

Dr. Mateus Dornelles Severo

Médico Endocrinologista

CREMERS 30.576

mateusdsevero@gmail.com

www.facebook.com/drmateusendocrino

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